Fórmulas para APLV: extensamente hidrolisada, aminoácidos ou soja?
As três categorias de fórmula usadas em APLV no Brasil — como são feitas, quando cada uma é indicada e como acessar pelo SUS.
Bebês com APLV que não podem (ou não conseguem) ser amamentados exclusivamente precisam de uma fórmula especial. E "especial" aqui não é marketing — é um produto com tecnologia de processamento diferente, indicação médica específica e, na maioria dos casos, fornecimento obrigatório pelo SUS.
Este artigo é um mapa das três categorias de fórmula usadas em APLV no Brasil, quando cada uma é indicada, e o que fazer quando há recusa ou dificuldade de acesso.
Três categorias, uma lógica
As fórmulas para APLV se dividem em três grandes grupos, em ordem crescente de "modificação" da proteína:
- Fórmula extensamente hidrolisada (FEH) — proteína do leite quebrada em pedaços muito pequenos
- Fórmula à base de aminoácidos (FAA) — proteína totalmente fragmentada em aminoácidos individuais
- Fórmula de soja — proteína vegetal, de soja, sem relação com leite
Cada categoria atende a um perfil específico. Não é "escolha pessoal" — é definição clínica, baseada no tipo de APLV, na gravidade, na idade e na resposta individual.
Fórmula extensamente hidrolisada (FEH)
O que é
A FEH é feita a partir da proteína do leite de vaca (caseína ou soro), passada por um processo de hidrólise enzimática extensa, que quebra a proteína em peptídeos de cadeia muito curta (geralmente menores que 1.500 Da). O tamanho desses fragmentos é pequeno demais para ser reconhecido pelo sistema imunológico da maioria dos bebês com APLV.
Existem versões com lactose (mais próximas do leite em sabor, mais bem aceitas) e sem lactose (quando há intolerância secundária associada, comum em APLV com inflamação intestinal).
Quando é indicada
Segundo o PCDT APLV (CONITEC 2022) e o Consenso Brasileiro (ASBAI/SBP), a FEH é a primeira escolha para a maioria dos casos de APLV — especialmente nas formas não-IgE mediadas leves a moderadas. É eficaz em:
- ~90% dos bebês menores de 6 meses com APLV
- ~95% dos bebês acima de 6 meses
Quando NÃO é suficiente
- Casos de APLV com sintomas persistentes após 2 a 4 semanas em FEH
- Formas graves (anafilaxia, FPIES grave, enteropatia severa)
- Bebês com múltiplas alergias alimentares
- Bebês com comprometimento grave de crescimento
Nesses casos, escala-se para fórmula de aminoácidos.
Marcas disponíveis no Brasil
Existem várias (Pregomin Pepti, Aptamil Pepti, Alfaré, Althera, Nutramigen, entre outras). A escolha entre elas depende de disponibilidade, presença ou não de lactose, perfil nutricional, aceitação pelo bebê e, em muitos casos, do que está disponível via SUS na sua região.
Fórmula à base de aminoácidos (FAA)
O que é
Ao invés de quebrar a proteína do leite em pedaços pequenos, a FAA fornece cada aminoácido individualmente. Como não há peptídeo nenhum, não há estímulo imunológico ao sistema. É a forma mais segura possível.
A "contrapartida" é o sabor: FAA tem gosto marcadamente amargo, muitas vezes difícil de aceitar, e custo mais alto.
Quando é indicada
- APLV grave: anafilaxia, FPIES grave, enterocolite alérgica severa
- Sintomas persistentes após 2 a 4 semanas em FEH bem ofertada
- Múltiplas alergias alimentares confirmadas
- Baixo ganho de peso persistente
- Síndromes de má absorção associadas
Marcas disponíveis no Brasil
Exemplos: Neocate LCP, Alfamino, Neocate Junior, entre outras. Também incluídas no PCDT e disponíveis via SUS mediante indicação.
Fórmula de soja
O que é
Não é feita de leite de vaca. É uma fórmula vegetal, à base de isolado proteico de soja, fortificada para atender às necessidades nutricionais infantis.
Quando é indicada
A soja não é primeira linha. Segundo as diretrizes brasileiras e da ASBAI, pode ser considerada em situações específicas:
- APLV IgE mediada em bebês maiores de 6 meses (antes disso há risco de sensibilização à soja)
- Formas leves de APLV, após estabilização com FEH ou FAA por 6 a 8 semanas
- Considerações familiares (custo, religião, dieta vegana familiar) — em casos selecionados, após segurança garantida
Limitações
- Cerca de 10 a 15% dos bebês com APLV também reagem à soja (reação cruzada ou sensibilização paralela). Por isso não se indica de primeira.
- Conteúdo de fitatos pode reduzir absorção de alguns minerais.
- Presença de fitoestrógenos é discutida na literatura; em doses alimentares não há evidência de prejuízo, mas é uma das razões de cautela com uso prolongado em bebês muito pequenos.
Quando NÃO usar soja
- Bebês menores de 6 meses
- APLV não-IgE mediada gastrointestinal (risco de também ter alergia à soja)
- Bebês com sintomas graves ou má resposta anterior à soja
O caminho prático de escolha
Diante de um diagnóstico de APLV, a sequência típica é:
- Se amamentação exclusiva: mantém-se, com dieta materna de exclusão. Fórmula só entra se houver desmame ou introdução prevista.
- Primeira fórmula: FEH, avaliada por 2 a 4 semanas.
- Se resposta boa: mantém FEH até indicação de reintrodução.
- Se resposta ruim ou quadro grave: FAA.
- Em fase tardia, casos leves ou perfil específico: considera soja (>6 meses).
É uma escada de passos, feita com acompanhamento. Nunca se "pula" para soja por ser mais barata ou para FAA por "ser a melhor" — isso é engenharia reversa ruim.
Acesso pelo SUS
A Portaria SCTIE nº 67/2018 incorporou oficialmente ao SUS as fórmulas FEH (com e sem lactose), FAA e soja para crianças de 0 a 24 meses com APLV. Ou seja: é direito.
Na prática, o acesso varia por estado e município. O fluxo típico:
- Laudo médico detalhando o diagnóstico, o tipo de APLV, a fórmula indicada e a quantidade por mês.
- Relatório nutricional complementar é bem-vindo.
- Cadastro na Secretaria de Saúde (estadual ou municipal), com formulários específicos.
- Acompanhamento periódico, com renovação da indicação.
Em muitos estados, mesmo com toda documentação, há demora ou falta de insumo. Quando o caminho administrativo não resolve, a via judicial (Defensoria Pública ou ação judicial via advogado) é utilizada com alta taxa de sucesso, desde que a documentação clínica esteja bem feita.
O site da sua Secretaria Estadual de Saúde costuma ter o passo a passo. Vale consultar e, se possível, também a Associação de Pais e Alérgicos Alimentares da região — muitas orientam sobre o fluxo local e apoiam ações coletivas.
Recusa da fórmula: o que fazer
A recusa é uma das maiores dificuldades práticas. FEH e principalmente FAA têm sabor amargo. Estratégias que ajudam:
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Introdução gradual: por alguns dias, se houver fórmula atual já oferecida, misturar 25% da nova com 75% da atual. Aumentar aos poucos a proporção da nova até 100%. Se o bebê está em leite materno exclusivo e começa direto na fórmula, o processo é mais difícil — paciência na primeira semana.
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Oferecer fria/gelada: fórmula gelada reduz a percepção do amargor. Não é mais saudável ou menos saudável — é estratégia de aceitação.
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Trocar utensílio: se o bebê já mama mamadeira e está recusando, às vezes a troca para colher, seringa ou copinho quebra o bloqueio.
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Horário com fome mas calmo: nem esfomeado (aí rejeita por irritação), nem saciado.
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Não forçar: a maior parte dos bebês acaba aceitando em 1 a 2 semanas. Em alguns casos, precisamos tentar outra fórmula da mesma categoria (outra marca de FEH, por exemplo) — têm sabores um pouco diferentes entre si.
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Nunca adoçar: açúcar, mel, achocolatado em bebê é contraindicado por outros motivos (obesidade, saúde bucal, botulismo em crianças menores de 1 ano).
Se após 1 a 2 semanas de tentativas persistir a recusa com impacto no peso, retorne à profissional. Pode haver indicação de trocar a categoria ou usar suporte temporário (sonda, em casos extremos).
A questão emocional
Lidar com fórmula especial é um baque. É mais cara, mais difícil de encontrar, tem cheiro "diferente", o bebê muitas vezes resiste. Em um mundo que exalta a amamentação, usar fórmula já vem com peso emocional — usar fórmula especial, ainda mais.
Vale lembrar: a fórmula que seu bebê está usando é um avanço científico enorme. É o que permite ele crescer com segurança sem a proteína que o adoece. Isso não é "plano B" — é exatamente o tratamento correto para a situação dele. Culpa aqui não cabe.
O que fica
Fórmulas para APLV são três categorias, cada uma com seu papel. FEH é primeira linha para a maioria; FAA é para casos graves ou refratários; soja é exceção, não regra. Todas estão previstas no SUS.
A escolha é clínica. A aceitação é um processo. O acesso pode ser trabalhoso, mas é direito. E o bebê que está bem com a fórmula adequada é um bebê em tratamento de sucesso, caminhando para a reintrodução.
Referências técnicas:
- Portaria SCTIE nº 67/2018 — incorporação de fórmulas para APLV no SUS.
- PCDT APLV — CONITEC / Ministério da Saúde, 2022.
- Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar — ASBAI/SBP, 2018 e atualizações.
- Uso de fórmulas à base de soja na alergia à proteína do leite de vaca — posicionamento ASBAI.
Conteúdo educativo. A escolha da fórmula deve ser individualizada com profissional habilitado.
