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O que é APLV
Um guia objetivo sobre alergia à proteína do leite de vaca: o que acontece no corpo da criança, os tipos, sintomas, como é diagnosticada e os principais mitos.
APLV é a sigla para alergia à proteína do leite de vaca. É uma reação do sistema imunológico à proteína do leite — diferente (e muitas vezes confundida com) intolerância à lactose. Enquanto a intolerância é um problema digestivo, a APLV é uma resposta de defesa do corpo.
Afeta cerca de 2 a 3% das crianças menores de 3 anos, segundo o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar (ASBAI/SBP). A boa notícia: a maior parte das crianças desenvolve tolerância natural até os 3 anos de idade.
Os três tipos de APLV
A classificação por mecanismo imunológico guia tudo: diagnóstico, tratamento e reintrodução. Conhecer o tipo é essencial.
APLV IgE mediada
O sistema imune produz anticorpos IgE contra a proteína do leite. Reações são rápidas — entre minutos e 2 horas após contato. Sintomas típicos: urticária, inchaço (lábios, pálpebras, rosto), coriza, tosse, vômito imediato. Em casos graves pode ocorrer anafilaxia, com risco de vida.
APLV não-IgE mediada
O mecanismo é celular, não produz IgE. Reações são tardias — aparecem horas a dias após o consumo. Predominam sintomas gastrointestinais: sangue ou muco nas fezes, cólicas intensas, refluxo persistente, diarreia ou constipação crônica, vômitos recorrentes. Entram aqui quadros como FPIAP (proctocolite alérgica) e FPIES.
APLV mista
Combina características das duas. Por exemplo, eczema importante (componente IgE) com sintomas digestivos crônicos (componente não-IgE).
Sinais para ficar atenta
Nenhum sintoma isolado fecha diagnóstico. Mas alguns sinais, especialmente em combinação, devem acender o alerta:
- Sangue ou muco visível nas fezes
- Cólicas intensas, choro de horas
- Refluxo que não cede com medidas comuns
- Vômitos recorrentes
- Diarreia crônica ou constipação persistente
- Dermatite atópica extensa ou urticária recorrente
- Inchaço em lábios, pálpebras ou rosto após mamar
- Baixo ganho de peso
- Tosse ou chiado sem causa clara
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico e combina diferentes informações:
- História detalhada: sintomas, frequência, relação com alimentação
- Diário alimentar: registro de 7 a 14 dias
- Exame físico: crescimento, sinais de atopia, fezes
- Exames complementares (em suspeita IgE): IgE específico, prick test
- Dieta de exclusão: retirada da proteína por 2 a 4 semanas
- Reintrodução supervisionada: teste de provocação oral (TPO), padrão-ouro
O teste de "IgG para alimentos" vendido em alguns laboratórios não é válido para diagnosticar APLV — posicionamento explícito da ASBAI. Não orienta exclusões alimentares.
O tratamento em linhas gerais
- Dieta de exclusão: retirada da proteína do leite da alimentação da criança e, se amamentada, da mãe.
- Escolha de fórmula, quando aplicável: extensamente hidrolisada (primeira linha), aminoácidos (casos graves), soja (exceção).
- Acompanhamento nutricional: manter nutrição adequada apesar das restrições, cálcio, vitamina D, proteína, calorias suficientes.
- Educação da família: leitura de rótulos, prevenção de contaminação cruzada, ação em caso de reação.
- Reintrodução programada: escada do leite, teste de provocação oral, quando for o momento.
Três mitos que precisam morrer
1. "Leite sem lactose serve para APLV"
Não. Leite sem lactose ainda contém a proteína do leite — é o açúcar que foi quebrado. Para quem tem APLV, a proteína é o problema. Continua proibido.
2. "Criança que tem APLV não vai tomar leite nunca mais"
Na maioria dos casos, a criança desenvolve tolerância até os 3 anos. A reintrodução, feita pela escada do leite, permite retomar laticínios de forma segura na grande maioria dos casos.
3. "É só tirar o leite e pronto"
Tirar o leite sem compensar os nutrientes compromete o crescimento e a saúde da criança. Tratamento de APLV é nutricional: é substituir, não apenas excluir.
Próximos passos
Se você suspeita que o seu filho pode ter APLV, o caminho é: procurar um pediatra com experiência em alergia alimentar, evitar restrições por conta própria (que atrapalham o diagnóstico), manter diário alimentar, e procurar acompanhamento nutricional assim que houver suspeita forte ou diagnóstico.

Quem escreve por aqui
Dra. Juliana Maia
Nutricionista clínica (CRN-9 22006), expert em alergia alimentar. Descobriu a APLV do próprio filho aos 12 dias de vida e hoje atende famílias do Brasil inteiro.
Conhecer a históriaImportante
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta com profissional habilitado. Em caso de suspeita de APLV, procure um pediatra e/ou nutricionista. Em caso de reação aguda, procure atendimento de urgência.