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Dra. Juliana Maia Nutri APLV

Página educacional

O que é APLV

Um guia objetivo sobre alergia à proteína do leite de vaca: o que acontece no corpo da criança, os tipos, sintomas, como é diagnosticada e os principais mitos.

APLV é a sigla para alergia à proteína do leite de vaca. É uma reação do sistema imunológico à proteína do leite — diferente (e muitas vezes confundida com) intolerância à lactose. Enquanto a intolerância é um problema digestivo, a APLV é uma resposta de defesa do corpo.

Afeta cerca de 2 a 3% das crianças menores de 3 anos, segundo o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar (ASBAI/SBP). A boa notícia: a maior parte das crianças desenvolve tolerância natural até os 3 anos de idade.

Os três tipos de APLV

A classificação por mecanismo imunológico guia tudo: diagnóstico, tratamento e reintrodução. Conhecer o tipo é essencial.

APLV IgE mediada

O sistema imune produz anticorpos IgE contra a proteína do leite. Reações são rápidas — entre minutos e 2 horas após contato. Sintomas típicos: urticária, inchaço (lábios, pálpebras, rosto), coriza, tosse, vômito imediato. Em casos graves pode ocorrer anafilaxia, com risco de vida.

APLV não-IgE mediada

O mecanismo é celular, não produz IgE. Reações são tardias — aparecem horas a dias após o consumo. Predominam sintomas gastrointestinais: sangue ou muco nas fezes, cólicas intensas, refluxo persistente, diarreia ou constipação crônica, vômitos recorrentes. Entram aqui quadros como FPIAP (proctocolite alérgica) e FPIES.

APLV mista

Combina características das duas. Por exemplo, eczema importante (componente IgE) com sintomas digestivos crônicos (componente não-IgE).

Sinais para ficar atenta

Nenhum sintoma isolado fecha diagnóstico. Mas alguns sinais, especialmente em combinação, devem acender o alerta:

  • Sangue ou muco visível nas fezes
  • Cólicas intensas, choro de horas
  • Refluxo que não cede com medidas comuns
  • Vômitos recorrentes
  • Diarreia crônica ou constipação persistente
  • Dermatite atópica extensa ou urticária recorrente
  • Inchaço em lábios, pálpebras ou rosto após mamar
  • Baixo ganho de peso
  • Tosse ou chiado sem causa clara

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico e combina diferentes informações:

  • História detalhada: sintomas, frequência, relação com alimentação
  • Diário alimentar: registro de 7 a 14 dias
  • Exame físico: crescimento, sinais de atopia, fezes
  • Exames complementares (em suspeita IgE): IgE específico, prick test
  • Dieta de exclusão: retirada da proteína por 2 a 4 semanas
  • Reintrodução supervisionada: teste de provocação oral (TPO), padrão-ouro

O teste de "IgG para alimentos" vendido em alguns laboratórios não é válido para diagnosticar APLV — posicionamento explícito da ASBAI. Não orienta exclusões alimentares.

O tratamento em linhas gerais

  1. Dieta de exclusão: retirada da proteína do leite da alimentação da criança e, se amamentada, da mãe.
  2. Escolha de fórmula, quando aplicável: extensamente hidrolisada (primeira linha), aminoácidos (casos graves), soja (exceção).
  3. Acompanhamento nutricional: manter nutrição adequada apesar das restrições, cálcio, vitamina D, proteína, calorias suficientes.
  4. Educação da família: leitura de rótulos, prevenção de contaminação cruzada, ação em caso de reação.
  5. Reintrodução programada: escada do leite, teste de provocação oral, quando for o momento.

Três mitos que precisam morrer

1. "Leite sem lactose serve para APLV"

Não. Leite sem lactose ainda contém a proteína do leite — é o açúcar que foi quebrado. Para quem tem APLV, a proteína é o problema. Continua proibido.

2. "Criança que tem APLV não vai tomar leite nunca mais"

Na maioria dos casos, a criança desenvolve tolerância até os 3 anos. A reintrodução, feita pela escada do leite, permite retomar laticínios de forma segura na grande maioria dos casos.

3. "É só tirar o leite e pronto"

Tirar o leite sem compensar os nutrientes compromete o crescimento e a saúde da criança. Tratamento de APLV é nutricional: é substituir, não apenas excluir.

Próximos passos

Se você suspeita que o seu filho pode ter APLV, o caminho é: procurar um pediatra com experiência em alergia alimentar, evitar restrições por conta própria (que atrapalham o diagnóstico), manter diário alimentar, e procurar acompanhamento nutricional assim que houver suspeita forte ou diagnóstico.

Dra. Juliana Maia

Quem escreve por aqui

Dra. Juliana Maia

Nutricionista clínica (CRN-9 22006), expert em alergia alimentar. Descobriu a APLV do próprio filho aos 12 dias de vida e hoje atende famílias do Brasil inteiro.

Conhecer a história

Importante

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta com profissional habilitado. Em caso de suspeita de APLV, procure um pediatra e/ou nutricionista. Em caso de reação aguda, procure atendimento de urgência.