Consenso de alergia alimentar 2025: o que muda para as famílias
ASBAI e SBP atualizaram o posicionamento sobre alergia alimentar. O que entrou na conversa e o que isso significa na prática.
Em março de 2025, durante o 17º Congresso Brasileiro de Alergia e Imunologia, a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicaram um posicionamento conjunto atualizando o que se sabe sobre alergia alimentar no Brasil.
Documento de sociedade médica não costuma virar assunto de mãe. Mas esse mexe com coisas que aparecem na sua consulta, e vale saber que existem — nem que seja para perguntar.
Vou traduzir o que mudou de tom, com uma ressalva que faço logo: quem aplica isso ao seu filho é o médico dele. Eu não prescrevo tratamento; organizo a nutrição em volta dele.
1. A conversa deixou de ser só "exclua e espere"
Durante muito tempo, o tratamento de alergia alimentar se resumia a duas coisas: tirar o alimento e esperar a criança crescer.
Isso continua sendo a base — mas deixou de ser o teto. O documento traz espaço crescente para tratamentos ativos, que buscam modificar a alergia em vez de apenas conviver com ela.
Para uma mãe que ouviu "é só tirar o leite e torcer", essa mudança de moldura importa.
2. Imunoterapia oral
É o tratamento em que a criança recebe doses muito pequenas e progressivamente maiores do alimento, sob supervisão, para o corpo aprender a tolerá-lo — também chamado de dessensibilização.
Dois pontos importantes que a atualização deixa claros:
- Não é procedimento simples. É longo, exige supervisão intensa e tem reações alérgicas com frequência ao longo do caminho
- Por isso vêm sendo estudados protocolos mais lentos, que buscam mais segurança
Traduzindo: existe, é promissor, não é para todo mundo, e não é de graça em termos de esforço e risco. Não é "dar leitinho aos pouquinhos em casa" — nada aqui autoriza isso.
3. Imunobiológicos, com destaque para o omalizumabe
O omalizumabe é um medicamento biológico já usado em asma alérgica e urticária. A novidade é o papel dele na alergia alimentar: mostrou-se promissor em proteger pessoas com múltiplas alergias alimentares de reações graves por exposição acidental.
Repare no que isso resolve — não é "curar a alergia". É reduzir a gravidade do acidente, que para famílias com criança de alto risco é uma mudança enorme de qualidade de vida.
Também aparece a possibilidade de associar o omalizumabe à imunoterapia oral, para reduzir o risco do procedimento.
4. Prevenção: a janela continua importando
O documento reforça o que já vinha se consolidando: não adiar a introdução de alimentos alergênicos.
Esse é o ponto que mais afeta quem já tem um filho com APLV, e o que mais vejo ser feito ao contrário — a família adia ovo, amendoim, trigo por medo. Escrevi um artigo inteiro sobre isso, porque é uma decisão bem-intencionada que costuma sair cara.
5. História natural: a maioria melhora
A atualização também trata da história natural da alergia alimentar — como ela evolui com o tempo.
A mensagem que interessa às famílias segue a mesma: a maioria das crianças com APLV desenvolve tolerância, e o tipo de reação influencia o prognóstico. É assunto do texto sobre se a APLV tem cura.
O que fazer com isso na prática
Não é para chegar na consulta pedindo tratamento por ter lido um artigo. É para fazer perguntas melhores:
- "O caso do meu filho é de manter só exclusão, ou já cabe pensar em algum tratamento ativo?"
- "Quando a gente reavalia se ele ainda é alérgico?"
- "Tem indicação de avaliar com alergista, e não só com pediatra?"
- "Estou fazendo certo em introduzir os outros alergênicos?"
E uma coisa que não muda com consenso nenhum: enquanto o tratamento é exclusão, a exclusão precisa ser bem-feita e bem nutrida. Tirar o leite é metade. A outra metade é garantir cálcio, vitamina D, proteína e energia suficientes para a criança crescer — e é aí que eu entro.
Uma ressalva honesta
Este texto resume temas do posicionamento e o que eles significam para famílias. Não reproduz protocolos, doses nem critérios clínicos — isso é conversa entre você e o médico do seu filho, com o documento completo na mão dele.
Se algo aqui despertou uma pergunta, leve a pergunta. É exatamente para isso que serve.
Fontes: Atualização em Alergia Alimentar 2025 — posicionamento conjunto ASBAI e SBP · Sociedade Brasileira de Pediatria
Este texto é informativo e não substitui consulta.
